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3 de setembro de 2026

No tratamento do autismo, número de sessões não basta para medir resultado, defende especialista


O Brasil tem 2,4 milhões de pessoas diagnosticadas com Transtorno do Espectro Autista (TEA), o equivalente a 1,2% da população, segundo dados do Censo 2022 divulgados pelo IBGE. Entre as crianças de 5 a 9 anos, essa proporção chega a 2,6%. O crescimento da demanda por atendimento amplia também uma discussão relevante para famílias, profissionais e operadoras de saúde: como avaliar se o tratamento está efetivamente produzindo resultados?

Para o Grupo Bem Criar, rede especializada no atendimento de crianças com transtornos do neurodesenvolvimento na Grande Florianópolis, Balneário Camboriú e as unidades no Rio Grande do Norte, a resposta não pode estar apenas na quantidade de sessões realizadas. A empresa vem adotando um modelo no qual o tratamento parte das necessidades de cada criança, com objetivos definidos, acompanhamento da evolução e revisão das intervenções ao longo do tempo.

Na prática, isso significa que duas crianças com o mesmo diagnóstico podem precisar de estratégias, profissionais e intensidades de atendimento diferentes. “Não se trata de estabelecer que mais ou menos sessões sejam melhores. A pergunta precisa ser outra: quais intervenções esta criança necessita, quais objetivos queremos alcançar e como vamos medir sua evolução? É isso que deve orientar o tratamento”, afirma a CEO do Grupo Bem Criar, Joice Melo.

A abordagem encontra respaldo em diretrizes internacionais de cuidado. O National Institute for Health and Care Excellence (NICE), referência britânica na elaboração de protocolos clínicos, recomenda que pessoas autistas tenham planos personalizados, construídos a partir da avaliação das necessidades individuais e revistos conforme as necessidades e circunstâncias se modificam.

Para crianças e adolescentes, as recomendações incluem ainda a definição de resultados esperados, avaliação sistemática das respostas às intervenções e participação de familiares e cuidadores no processo.

Tratamento não é uma soma de procedimentos

Um dos desafios, segundo a Bem Criar, é superar a percepção de que a qualidade do atendimento pode ser aferida principalmente pelo número de sessões realizadas. Em determinados casos, uma criança pode necessitar de acompanhamento por diferentes especialidades. Isso, porém, não elimina a necessidade de coordenação entre os profissionais e de objetivos comuns para o tratamento. Sem essa integração, existe o risco de que diferentes terapias ocorram paralelamente sem que a evolução global da criança seja adequadamente acompanhada.

É nesse ponto que entra o plano terapêutico individualizado. A partir da avaliação inicial, são estabelecidos objetivos específicos para cada paciente. A evolução é acompanhada e, conforme os resultados, a estratégia pode ser revista.

“Quantidade, isoladamente, não é indicador de qualidade. Podemos ter crianças com necessidades muito distintas. O que precisamos conseguir demonstrar é se os objetivos estabelecidos estão sendo alcançados e se aquele atendimento está fazendo diferença na vida da criança”, explica Joice.

Família também precisa compreender os objetivos

Outro componente do modelo é a participação das famílias. A Bem Criar trabalha para que pais e responsáveis compreendam quais habilidades estão sendo desenvolvidas, quais resultados são esperados e como acompanhar a evolução da criança também fora do ambiente clínico. Essa participação se torna especialmente importante porque o autismo pode exigir acompanhamento por períodos prolongados e as necessidades mudam conforme a criança se desenvolve.

O diagnóstico e o acesso precoce ao cuidado também são relevantes. Quando a criança chega mais tarde ao atendimento, pode haver uma tentativa de compensar o tempo anterior concentrando diferentes intervenções simultaneamente. Para a Bem Criar, mesmo nessas situações, a definição das prioridades deve partir da avaliação individual e dos objetivos terapêuticos.

“Nosso papel é ajudar a família a entender o que estamos buscando em cada etapa. O tratamento precisa ter propósito, acompanhamento e capacidade de ser revisto. O centro dessa decisão deve ser sempre a necessidade da criança”, conclui Joice Melo.

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