“O conteúdo extraído do dispositivo revelou conversas com pessoas ligadas à cúpula da facção criminosa, além de indícios de repasses financeiros e conexões com uma influenciadora digital de grande projeção nacional. […] Essa influencer possuía estreitos vínculos pessoais e negociais com um dos gestores fantasmas daquela transportadora”, narrou a Polícia Civil de São Paulo, sobre a origem da Vérnix, terceira etapa da investigação iniciada em 2019, com apreensão de bilhetes que se referiam a uma “mulher da transportadora”.
“A influenciadora passou a ocupar posição de destaque no caso em razão de movimentações financeiras expressivas, incompatibilidades patrimoniais e indícios de conexão com integrantes do núcleo de comando da organização criminosa. Os levantamentos apontaram a utilização de pessoas jurídicas, recebimentos de origem não esclarecida, circulação de valores milionários e aquisição ou vinculação a bens de alto padrão”, relata a polícia judiciária paulista.
Não foram expostas quaisquer evidências de ligação do presidente Lula com os crimes atribuídos à Deolane Bezerra, que participou de um ensaio fotográfico com o chefe do governo do Brasil e a primeira-dama Janja, demonstrando intimidade, antes das operações que levaram a influencer à prisão.
Os investigadores apontam que a projeção pública, a atividade empresarial formal e a movimentação patrimonial de Deolane eram utilizadas como camadas de aparente legalidade para dificultar a identificação da origem ilícita dos recursos. Também foram identificadas estruturas empresariais e patrimoniais sucessivas usadas como mecanismo para dificultar o rastreamento da origem, circulação e destinação dos recursos do PCC.
“Os afastamentos de sigilos fiscal e financeiro revelaram um fluxo vultoso de dinheiro, com cifras sem lastro econômico compatível, movimentações bancárias atípicas, contas utilizadas para passagem de valores, operações envolvendo empresas sem capacidade financeira aparente e repasses que, segundo a Polícia Civil e o Ministério Público, não apresentaram justificativa lícita suficiente”, relata a Polícia Civil.
‘Mulher da transportadora’
Segundo a Polícia Civil comandada pelo governador Tarcísio Gomes de Freitas (Republicanos), a investigação de alta complexidade foi iniciada em 2019, revelou uma engrenagem financeira milionária utilizada para ocultar, dissimular e reinserir na economia formal valores vinculados à alta cúpula da facção criminosa autodenominada.
A investigação iniciou em 2019, com Polícia Penal apreendendo bilhetes e manuscritos com dois condenados presos na Penitenciária II de Presidente Venceslau, que narravam a dinâmica interna sobre a atuação de líderes da organização criminosa encarcerados e possíveis ataques contra agentes públicos. Com novas diligências e três inquéritos policiais, novas camadas da organização foram expostas.
“A análise do material apreendido permitiu identificar referências a ordens internas da facção, contatos com integrantes de elevada posição hierárquica e menções a ações violentas contra servidores públicos. Esses dois indiciados foram condenados e inseridos no sistema penitenciário federal. Ocorre que dentre os trechos analisados, chamou atenção a citação a uma ‘mulher da transportadora’, que teria levantado endereços de agentes públicos para subsidiar ataques planejados pela organização criminosa”, relatou a Polícia Civil, sobre o primeiro inquérito.
O segundo inquérito visava identificar quem seria a mulher mencionada nos bilhetes e qual seria a relação da transportadora com o grupo criminoso. E evidenciou uma empresa de Presidente Venceslau usada pelo crime organizado para lavar dinheiro, que foi alvo da Operação Lado a Lado, contra movimentações financeiras incompatíveis, crescimento patrimonial sem lastro econômico suficiente e a utilização da transportadora como verdadeiro braço financeiro da facção.
Dimensão internacional
A revelação de que três investigados estariam na Itália, na Espanha e na Bolívia levou a Polícia Civil paulista a representar pela inclusão dos suspeitos na Difusão Vermelha da Interpol, que caça foragidos internacionais, com apoio direto do MPSP e da Polícia Federal.
O Departamento de Operações Policiais Estratégicas (DOPE) também ajudou no cumprimento das diligências da Polícia Civil e do MPSP, que apontam a Operação Vérnix como mais um avanço no enfrentamento ao crime organizado sob a perspectiva patrimonial, atingindo não apenas operadores periféricos, mas também estruturas financeiras ligadas ao núcleo de comando da facção.
“A ação reforça que o combate ao crime organizado passa, cada vez mais, pela identificação e interrupção dos fluxos de dinheiro ilícito. Ao atingir bens, contas, empresas e patrimônio de alto valor, a investigação busca enfraquecer a capacidade econômica da organização criminosa, impedir a continuidade da lavagem de capitais e assegurar a responsabilização dos envolvidos”, concluiu a Polícia Civil.
